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Pregando a Linha Melódica

16 de set.
9 min de leitura
Marius Massalar / Lightstock
Marius Massalar / Lightstock

Entrevista da revista Cristianismo Hoje com Dick Lucas: «Como os grandes temas enriquecem um sermão»   Pastores de Connecticut - Agosto de 2005


PreachingToday.com: O que você quer dizer quando fala em pregar a linha melódica de um texto?

Dick Lucas: Eu não inventei o termo "linha melódica", mas ele se tornou bastante conhecido. A linha melódica deriva do fato de que uma peça musical possui uma melodia ou uma linha melódica que a percorre e mantém toda a obra coesa. Queremos mostrar que, em uma carta do Novo Testamento, por exemplo, um tema mantém toda a obra coesa. Portanto, retirar versículos e passagens do contexto dessa linha melódica, desse tema, desse argumento que percorre a carta, não seria proveitoso.


Por exemplo, 2 Timóteo 3.16 é frequentemente usado para provar a inspiração das Escrituras, o que, de fato, comprova. Mas se o analisarmos no contexto da carta, veremos que se trata das instruções de Paulo a Timóteo sobre como ele deve prosseguir seu ministério. Paulo está dizendo que o único instrumento necessário para o ministério de Timóteo é a Palavra de Deus, que o capacitará e o instruirá em justiça, correção e tudo o mais. Conheço um diretor de um seminário teológico que está determinado a submeter todo o currículo a 2 Timóteo 3.16. Ou seja, ele quer que a Bíblia controle todas as outras disciplinas. É exatamente isso que Paulo está dizendo a Timóteo. Embora o versículo ensine sobre a inspiração das Escrituras, e de fato, sem ela as Escrituras não teriam poder para realizar a obra, o versículo se dirige especificamente à pessoa de Deus — ao ministro, ao pastor, ao professor — e lhe diz como ele deve ser plenamente capacitado.


Como esse princípio se aplica na preparação de um sermão?

Digamos que eu esteja fazendo uma série sobre a Epístola a Judas. Ela começa com aquela maravilhosa declaração de que somos guardados por Cristo e termina com aquela maravilhosa doxologia: "Àquele que é poderoso para vos guardar de cair". Se você observar o material no meio da Epístola, a ênfase está em como devemos nos guardar do desastre por meio da obediência à fé e aos padrões que Deus estabeleceu. Há um equilíbrio notável. Deus guarda o seu povo — todos nós sabemos disso. Mas a Epístola está dizendo que não basta saber que Deus nos guarda. O sinal de que Deus está guardando o seu povo é que eles estão se guardando. Isso me dá uma compreensão da Epístola. Mostra-me sobre o que ela trata, para onde ela está indo. Há alguns versículos complexos e importantes em Judas sobre os quais eu poderia dedicar um sermão inteiro, mas se eu tiver o padrão e o argumento da Epístola, tudo fará muito mais sentido.


Quando você prega sobre uma seção de um livro, você ainda percorre o livro inteiro para destacar essa linha melódica?

É uma das disciplinas mais importantes para o pregador. É alarmante ir a uma igreja onde uma equipe de pregadores está realizando uma série sobre Hebreus, por exemplo, e cada pregador tem uma ideia diferente sobre o que o livro realmente trata. É absolutamente essencial saber a linha melódica, o argumento, o tema do livro.


Quais são alguns dos segredos que você descobriu para encontrar a linha melódica de um livro e para integrá-la a um sermão de uma forma que mantenha as pessoas interessadas?

Esse é o árduo trabalho da preparação. É emocionante descobrir a razão pela qual o Livro foi escrito. A dificuldade reside no fato de que o estudioso, ao escrever seu comentário — e, claro, eles são essenciais para nós como parte do nosso trabalho — inevitavelmente será um detalhista. Ele lhe dirá o significado de cada palavra, de onde ela vem; ele lhe falará sobre cada ponto e vírgula. Isso é ótimo, mas eu também quero saber por que eles estão ali; e isso os comentaristas geralmente não são tão bons nisso, porque suas habilidades acadêmicas são aprimoradas para as questões técnicas.


Se eu escrevesse uma carta a um amigo dizendo que ia pegar um trem e que o encontraria em Cambridge às três horas, e essa carta fosse desenterrada daqui a 2.000 anos, o estudioso não se interessaria pelo motivo pelo qual a carta foi escrita. Ele analisaria os detalhes da carta e escreveria monografias sobre eles. Por exemplo, na carta eu poderia ter dito que pararia no McDonald's a caminho de Cambridge. O estudioso diria: "Esse sujeito, há 2.000 anos, devia ser escocês e tinha amigos escoceses que visitava". Então, alguém com doutorado descobriria que o McDonald's era um café. Tudo isso é interessante, mas não é sobre isso que a carta foi escrita. A carta foi escrita para dizer: "Você vai me encontrar às três horas?". Portanto, a carta de 2 Pedro foi escrita para me alertar de que serei desviado da minha estabilidade, a menos que cresça na graça e no conhecimento de Deus. Isso norteia toda a carta. Então, preciso saber por que ele escreveu a carta se eu for analisar os detalhes.


Geralmente você encontra um versículo-chave que lhe dá a dica, ou é a repetição que lhe revela a ideia principal?

Às vezes, é um versículo-chave. Um dos versículos que usamos recentemente foi Hebreus 13.8. É o que eu chamo de "texto de calendário de cozinha": "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre". Poucas pessoas têm a menor ideia do que isso realmente significa. Mas é uma chave para Hebreus, porque diz que Jesus Cristo, em sua obra como sacerdote e em trazer a revelação de Deus, permanece para todo o sempre. Se a Rainha da Inglaterra permanecesse para todo o sempre, o Príncipe Charles nunca seria rei. Então, se o sacerdote permanece para todo o sempre, nunca haverá outro sacerdote. Isso me diz que o tema de Hebreus tem a ver com a obra consumada de Cristo na cruz e que não precisa haver outro sacerdote, porque ele é o sacerdote para todo o sempre. Se ele é sacerdote para todo o sempre, isso significa que ele concluiu sua obra redentora e reconciliadora, e há uma mensagem final dada à igreja à qual nada pode ser acrescentado. A Epístola aos Hebreus começa dizendo que Deus falou muitas vezes no passado, mas falou finalmente por meio de seu Filho.


Se você juntar essas duas coisas — a obra consumada e a palavra final — terá a mensagem de Hebreus, mas é improvável que a compreenda sem percorrer o livro e se perguntar: Qual é o argumento central que o permeia? O autor está dizendo: Não se afastem desta Palavra. Não acrescentem nada a ela, porque a obra de Cristo como sacerdote foi concluída e vocês estão reconciliados com Deus. Se vocês estão reconciliados, ninguém pode fazer nada para torná-los mais reconciliados e mais aceitáveis.


Como podemos treinar as pessoas para terem a disciplina mental necessária para seguir uma linha de raciocínio, para se aprofundarem no texto e enxergarem o panorama geral conosco?

A maioria das pessoas prefere ordem e lógica à confusão. Às vezes, deveríamos dizer ao pregador: "Ordem! Ordem! Para onde vai? Qual é a sua ordem?" A maioria das pessoas prefere que o pregador tenha algum tipo de ordem para saber para onde deve ir. Chamamos isso de "lógica em chamas". Essa expressão vem de Martin Lloyd-Jones, que disse que o sermão deve ser conhecido por sua lógica, mas essa lógica deve ser em chamas, ou seja, não apenas uma lógica fria e acadêmica.


O grande sermão de Paulo aos atenienses é exatamente isso: lógica em chamas. Ele apresenta uma linha clara de ensino sobre a ignorância deles, as razões dessa ignorância e o que deveriam fazer a respeito. Algumas pessoas gostam de confusão emocional, mas depois de um tempo preferem ter a mente instruída e satisfeita. É como quando éramos crianças. Gostávamos de comidas que não nos nutriam, mas à medida que crescíamos, passávamos a preferir alimentos mais nutritivos. Conforme você cresce espiritualmente, prefere algo que nutra tanto a sua mente quanto o seu coração.


No domingo, pregarei sobre o etíope em Atos 8. Uma das coisas que precisamos fazer quando nos deparamos com uma história familiar como essa é observar a estrutura que o autor utiliza para contá-la. O autor tem participação nisso e conta a história com um ponto de vista específico. Agora, podemos usar essa história de diversas maneiras. Li um livro sobre evangelismo pessoal baseado na história do etíope, e isso é legítimo. Muitas vezes, guardei essa história na manga quando me pediram, em cima da hora, para falar com empresários, porque é a história de um empresário que encontrou Cristo. Mas nenhum desses motivos é a razão pela qual Lucas conta a história. Lucas a conta porque a igreja em Atos 8 está começando a se espalhar pelo mundo todo. É a época em que os discípulos são expulsos de Jerusalém, primeiro para Samaria e depois para os confins da terra. Portanto, Atos 8 representa o primeiro capítulo dessa grande expansão da igreja pelo mundo. E Lucas quer nos mostrar o que é o verdadeiro ministério evangelístico.


Agora, imagino que o escritório de Lucas fosse bastante desorganizado, pois ele recebia material o tempo todo sobre pregações, campanhas, coisas maravilhosas, perseguições e assim por diante. Mas ele dedica um capítulo inteiro a duas histórias: Simão, o mágico, que é uma representação distorcida do ministério, e a história do etíope e Filipe, que é uma representação fiel do ministério. Então, quero saber o que ele tinha em mente ao escrever essa história. Ele queria me dizer: Filipe, guiado pelo Espírito, está lhe dando um modelo de como evangelizar.


O primeiro ponto é que o etíope lhe diz: "Como posso entender este livro sem um mestre?" Lucas está dizendo que a Bíblia não é autoexplicativa, que Deus designou mestres. Então, quando me volto para as Epístolas Pastorais, descubro que apenas uma qualificação profissional é necessária para ser ministro: ele precisa ser um professor apto. Assim, quando volto ao etíope, acho fascinante que o Espírito Santo envie Filipe ao deserto, a uma campanha evangelística que certamente não foi um convite muito bem-vindo, onde ele encontra uma pessoa lendo uma Bíblia que não entende. O etíope lhe diz: "Você poderia subir e me explicar?" E a palavra grega simplesmente significa "explique-a", "ensine-me".


Então, Lucas está me dizendo que a evangelização começa com a compreensão das Escrituras e que evangelizar não é colecionar conquistas; não é envolver as pessoas emocionalmente, e não é pedir uma decisão quando as pessoas não sabem sobre o que estão sendo solicitadas a decidir. Começa com o ensino bíblico. É extremamente encorajador para um jovem pastor que sente que deveria deixar a evangelização para os profissionais quando lhe dizem: "Se eu ensinar a Bíblia, estarei iniciando a empreitada evangelística". Isso vem da análise da estrutura da história.


Na Proclamation Trust, temos um princípio de pregação chamado "Hora das Perguntas". Retiramos esse princípio da passagem dos Evangelhos sinópticos onde Cristo é questionado. Ele frequentemente faz uma pergunta em resposta. Aliás, em algumas ocasiões, ele diz: "Não responderei à sua pergunta até que vocês respondam à minha: De onde João Batista tirou sua autoridade?". E como eles não querem responder, ele diz que não responderá. O que aprendemos é que o pregador não está ali primordialmente para responder às perguntas das pessoas; ele está ali primordialmente para apresentar as perguntas que Deus nos faz.


Quando eu ministrava em universidades, era frequentemente pressionado contra a parede pelos alunos, que me bombardeavam com perguntas. Deus estava no banco dos réus. A impressão era de que, se eu lhes explicasse por que Deus criou o mundo de uma maneira tão perversa, eles poderiam presumir acreditar nele. Essa é uma abordagem completamente equivocada para a apologética cristã. Deus não está no banco dos réus. Somos nós que estamos. Meu trabalho como pregador é chamar a atenção das pessoas para as grandes questões que Deus nos faz e que elas jamais ouviriam de outra forma.


Quando eu pregava para jovens profissionais em Londres, muitos dos quais na casa dos vinte anos começando a ganhar muito dinheiro, eu lhes fazia perguntas como: "Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?". Eu simplesmente lhes apresentava um balanço de lucros e perdas e dizia: "Eu posso ganhar o mundo inteiro. Posso assumir o controle da Harrods. Posso assumir o controle do Banco da Inglaterra. Posso me tornar um multimilionário e depois morrer, perder minha alma e ir para o inferno eternamente. Onde está o lucro nisso?". Ninguém nunca havia lhes feito essa pergunta antes. Essa pergunta que Deus nos faz nas palavras de Cristo é infinitamente mais importante do que uma pergunta que eles possam me fazer, o que é em grande parte resultado da ignorância deles, porque eles não tiveram acesso ao ensino bíblico.


Então, em "Question Time", estamos tentando dizer que a igreja deve estar na vanguarda, não na defensiva — não porque queremos ser orgulhosos ou difíceis, mas porque, na verdade, nós somos as pessoas no banco dos réus e Deus é quem faz as perguntas. O pregador precisa conhecer sua responsabilidade.


Considere o Salmo 2. Ele começa com aquela magnífica pergunta: Por que os governantes e reis da terra se unem e se enfurecem contra o Senhor e o seu ungido? Essa não é uma pergunta que alguém costuma fazer. As perguntas que fazemos e que vemos diariamente nos jornais são: Por que palestinos e judeus lutam uns contra os outros, e por que não conseguimos impedi-los? Essa é uma pergunta importante. Mas não é essa a pergunta que a Bíblia faz. A Bíblia pergunta: Por que o mundo está lutando contra Deus? "Bem", diz o Sr. Jones, ouvindo isso, "eu nunca soube disso." Podemos então prosseguir para o Novo Testamento e mostrar que, por natureza, não somos apáticos a Deus, mas sim antagônicos. Você e eu só aprendemos isso quando o Espírito Santo começou a nos ensinar o quão grande inimigo temos em nossos próprios corações contra Deus. Mas você logo aprende isso como pastor ou obreiro cristão, porque conversa com as pessoas sobre assuntos cristãos e encontra uma enorme hostilidade sempre que o assunto se aproxima delas. O Salmo 2.1 levanta essa grande questão, que as pessoas jamais ouviriam de outra forma.

Traduzido por André Oliveira

 
 
 

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